A nossa chegada a Sigiriya fez-se acompanhar por uma sensação de desejo alcançado, como se o momento que tantas vezes antecipámos tivesse finalmente sido materializado. Diante nós ergue-se a mais imponente formação natural da região que, sobre as planícies verdejantes, mostra ser a principal referência visual, como se tivesse sido ali propositadamente colocada com o intuito de intimidar e vigiar todos aqueles que no passado ousavam atravessar este território. Foi então com o olhar fixado nessa imagem quase surreal que nos preparámos para dar início à subida, sem imaginar que cada degrau nos revelaria, não só as vistas mais amplas de Sigiriya, mas também um retrato fiel do engenho humano que transformou uma formação rochosa numa das mais impressionantes fortalezas do Sri Lanka.
Os primeiros passos no interior do complexo dão-nos a conhecer os terrenos que se estendem aos pés do rochedo, local onde outrora se situavam os Jardins Aquáticos compostos por um sofisticado conjunto de lagos, canais de irrigação e áreas verdes que refletem um elevado nível de planeamento hídrico e paisagístico.
Mesmo que o caminho nos conduza através de diversos lances de escadas, mantemo-nos em áreas pouco elevadas, que para já ainda não exigem grande esforço às nossas pernas.
Uma placa de metal onde se pode ler uma pequena descrição apresenta-nos ao local que agora pisamos. Os Jardins das Pedras encontram-se numa zona pouco movimentada, onde ao longo dos séculos o silêncio e a densa vegetação se foram apropriando das ruínas de meia dúzia de antigas construções que serviram de abrigo a grupos de monges, numa época em que os reis ainda não haviam reclamado para si estas terras. Raízes retorcidas, pequenas grutas e estreitas passagens que nos conduzem por entre imponentes penedos rochosos são, para nós, o ponto alto da nossa passagem por este cenário tão primitivo quanto misterioso.
É a partir deste ponto que damos verdadeiramente início à ascensão. Várias dezenas de degraus talhados diretamente na rocha fazem-nos transpirar de uma forma que ainda não havíamos experiênciado até aqui. É também neste trecho que nos cruzamos com o primeiro grande grupo de turistas que, numa incomodativa algazarra, nos faz acordar para uma realidade cada vez mais comum nos dias que correm, com o cenário de permanente celebração a aumentar de tom ao atingirmos o patamar onde se situam as famosas Garras do Leão. A magnitude e o detalhe que dão forma a este local fazem-nos esquecer, por momentos, o ruído e a constante movimentação que nos rodeia, transportando-nos para um período do passado do Sri Lanka que dificilmente será apagado da sua história, até porque se mantém teimosamente esculpido no mais imponente corpo rochoso de Sigiriya. As sombras, e a brisa que corre em permanência aliviam o calor e convidam-nos a uma curta pausa de contemplação.
Faz-se tempo de seguir viagem. A vertente é agora tão íngreme que os antigos degraus de pedra foram substituídos por um passadiço de metal que montado sobre o vazio, desafia a coragem até daqueles que não sofrem de vertigens. Desde aquele ponto privilegiado o olhar lança-se sobre as paisagens selvagens que lá em baixo abraçam o rochedo, e esse parece ter sido o segredo para que concluíssemos a travessia quase sem darmos por isso.
Se antes da chegada ao topo o batimento cardíaco foi imposto pelas emoções vividas no derradeiro trecho, agora, ao alcançarmos o ponto mais elevado de Sigiriya, as emoções atingem níveis superlativos. Ainda que das estruturas originais já pouco reste, estes são terrenos reais, quase intransponíveis, que durante um longo período mantiveram a salvo um dos mais controversos reis do Sri Lanka.
As escavações arqueológicas que revelaram ao mundo o chamado Machu Picchu da Ásia identificaram um sem número de construções que mostram que, apesar de isolado do mundo exterior, o Rei vivia sem que nada lhe faltasse. Acomodações, salas de audiência, áreas religiosas, um harém e até uma piscina que seguramente seria usada pelo monarca nos dias mais quentes.
Se para os estudiosos a importância do rochedo do leão está no seu legado histórico, para nós, meros figurantes temporários, o fascínio pelo local acabou por surgir no momento em que nos abeirámos do limite da fortaleza. As vistas que dali se conseguem parecem não ter fim, com um vasto tapete verde a tomar conta de grande parte da paisagem.
Voltamos à maldita plataforma de metal, com o trajeto a ser agora realizado no sentido oposto o que acaba por tornar a sensação de vazio ainda mais evidente.
Segundo as indicações, os famosos frescos das Donzelas de Sigiriya serão encontrados numa antiga gruta, à qual se chega depois de vencermos mais uma estreita e desafiadora escada em espiral. Na parede rochosa desfilam diversas pinturas de figuras femininas em trajes reduzidos e que segundo os entendidos seriam a representação de ninfas celestiais que por algum capricho pessoal, o Rei Kasyapa fez questão de eternizar.
Antes de regressarmos ao ponto de partida ainda nos restava um derradeiro encontro com o passado. Enquanto percorremos o imenso corredor de pedra que nos conduzirá ao nível do solo somos surpreendidos pela Parede dos Espelhos, uma superfície que em tempos se encontrava tão polida que o monarca conseguiria ver o seu reflexo ao passar por ela.
O sol atinge o seu auge e nós, em busca de algum refúgio, abandonamos Sigiriya com a convicção de que havíamos visitado um local que vai muito para além da sua importância histórica. O Rochedo do Leão é a imagem que melhor define a ambição de quem o idealizou e que dele fez o seu mais valioso tesouro. Se a ascensão exigiu a superação de algumas fraquezas, a descida trouxe não só alivio mas sobretudo a certeza de que as mais incríveis experiências fazem-se quase sempre acompanhar de esforço e perseverança.
Ao lançarmos um último olhar sobre a fortaleza demo-nos conta que Sigiriya já não era apenas a imagem que tantas vezes vimos desfilar na internet, mas sim um local que explorámos passo a passo, sentindo na pele e guardando na memória cada um dos momentos que ali vivemos.
A nossa passagem por Sigiriya só ficou concluída depois de subirmos ao ponto mais elevado do Rochedo Pidurangala de onde tivemos as mais espetaculares vistas para o a Fortaleza do Leão.
INFORMAÇÕES ÚTEIS:
.COMO CHEGAR A SIGIRIYA:
Sigiriya é facilmente acessível desde os principais destinos turísticos do país. Se o ponto de partida for a cidade de Colombo poderá realizar o trajeto de autocarro ou comboio. No primeiro caso deverá, antes de mais, dirigir-se ao Bastian Mawatha Bus Terminal (Pettah), seguindo depois numa das diversas carreiras que saem de forma regular em direção a Dambulla. Uma vez aí terá de apanhar um autocarro urbano até Sigiriya. Esta viagem tem por norma uma duração total de aproximadamente 5 horas.
Caso opte por realizar a viagem de comboio, deverá então dirigir-se à estação ferroviária de Colombo Fort que tem ligações frequentes entre a capital e Dambulla. O derradeiro trecho da viagem será realizado num autocarro urbano.
Se viaja desde Kandy as ligações são igualmente asseguradas por autocarros até Dambulla com o processo de chegada a Sigiriya a ser idêntico aos exemplos anteriores. Caso o viajante não tenha grandes preocupações com o orçamento e procura um meio de transporte que privilegia o conforto e rapidez, então o táxi é a opção que mais lhe convém .
No nosso caso, tendo em conta que alugámos um tuk tuk para percorrer o país, chegámos a Sigiriya desta forma.
.ONDE DORMIMOS EM SIGIRIYA:
Por se tratar de um dos principais destinos turísticos do chamado triângulo cultural do Sri Lanka, não faltam em Sigiriya opções de alojamento capazes de satisfazer os critérios, carteiras e exigências dos visitantes que ali chegam. No nosso caso, e de forma a tirar o máximo partido do tempo que dispúnhamos para explorar a região, optámos por ficar instalados numa área central que nos permitisse chegar à fortaleza sem grandes dificuldades. A nossa escolha acabou então por recair sobre a Suba Home Stay, um pequeno hotel familiar que, apesar de simples, revelou ter as comodidades necessárias para que considerássemos a nossa estadia satisfatória. O quarto em que ficámos era limpo, espaçoso e com casa de banho. A propriedade dispõe também de estacionamento privativo, o que (para nós) se revelou uma mais-valia.
.COMO NOS DESLOCÁMOS EM SIGIRIYA:
A cidade de Sigiriya tem um perímetro relativamente compacto e tanto a Fortaleza do Leão como o Rochedo de Pidurangala estão situados a uma curta distância da área mais central, podendo ser alcançados sem grande dificuldade. Quanto a nós fizemos uso do "nosso" tuk tuk para chegarmos aos locais que visitámos.
Se tal como nós dispuser de pouco tempo e pretender deslocar-se entre os principais monumentos de forma rápida e confortável poderá recorrer aos serviços de um táxi ou tuk tuk.
.COMO ACEDER À INTERNET NO SRI LANKA DE FORMA PRÁTICA E RÁPIDA:
Se for daquelas pessoas que não faz questão de estar ligado à internet em permanência, então a rede wifi do alojamento assim como dos bares, cafés e restaurantes que frequentar durante a sua estadia será certamente suficiente para as suas necessidades. No entanto, se fizer questão de se manter conectado ao mundo digital de forma frequente poderá fazer como nós e adquirir um prático e funcional eSim. Durante a nossa viagem pelo Sudeste Asiático usámos a Operadora Saily que mostrou estar sempre à altura das nossa exigências, mesmo em algumas regiões mais remotas. Se optar por esta solução utilize os nossos códigos (PAULAE8084 & JOAOEN5015) e consiga 5 USD de desconto na sua primeira compra.
.QUAL A MELHOR ALTURA DO ANO PARA VISITAR SIGIRIYA:
A melhor altura do ano para visitar Sigiriya é entre dezembro e abril, período em que as temperaturas são mais elevadas e a probabilidade de chuva é reduzida. Estes meses proporcionam condições bastante favoráveis para explorar a zona arqueológica, sobretudo para quem pretende deslocar-se a pé ou de bicicleta. Entre maio e setembro, apesar do clima permanecer quente, a região poderá sentir os primeiros sinais das monções e ser afetada por alguma precipitação, limitando a visita a alguns locais do complexo. Os meses de outubro e novembro tendem a ser os mais instáveis em termos meteorológicos, sendo os menos recomendáveis para quem pretende tirar o máximo partido da sua passagem por esta região do país.
.VISTO E FORMALIDADES FRONTEIRIÇAS PARA O SRI LANKA:
Para entrar no Sri Lanka a maioria dos visitantes necessita de um visto turístico. O processo para a obtenção do ETA (Electronic Travel Authorization) é bastante simples e pode ser solicitado on-line através deste SITE antes do início da sua viagem. Depois do formulário devidamente preenchido e aprovado, o viajante receberá no seu e-mail a devida autorização de acesso ao território que deverá ser apresentada à chegada em conjunto com o passaporte (com pelo menos 6 meses de validade), bilhete de saída do Sri Lanka assim como um comprovativo de alojamento.
.CUIDADOS DE SAÚDE:
Esta região do Sri Lanka é, por norma, um destino que não exige grandes preocupações a nível de saúde, contudo sugerimos a realização da consulta do viajante antes do inicio a viagem.
Esta região do Sri Lanka é, por norma, um destino que não exige grandes preocupações a nível de saúde, contudo sugerimos a realização da consulta do viajante antes do inicio a viagem.
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