sexta-feira, 24 de agosto de 2018

.MONTE HUASHAN-O CÉU ALI TÃO PERTO


Um, dois...dez, vinte e oito, vinte e nove... cento e dezassete, cento e dezoito, cento e sei lá quantos!
Ao fim de pouco mais de dez minutos a minha concentração dissolve-se nas paisagens e perco completamente a noção do número de degraus que por baixo dos meus pés vão deslizando.
São montanhas a perder de vista, numa imensidão tão grande que o mundo inteiro parece caber naquele cenário avassalador onde o céu quase está à distância de um braço esticado.

O monte Huashan é uma das cinco montanhas sagradas da China e por consequência um movimentado ponto de convergência de fiéis e turistas que aqui chegam atraídos não só pela importância religiosa, mas também pela inegável beleza do local. 
Ao todo são cinco os picos que compõem esta secção montanhosa que em tempos serviu de refúgio a alguns grupos de monges Taoístas, que tirando partido da paz existente, as elegeram como um local propício à meditação. Hoje e apesar do cariz espiritual ainda estar presente nos santuários espalhados ao longo do trilho que percorre o corpo da montanha, o turismo é sem sombra de dúvidas o propósito principal da presença dos milhares de visitantes que vão entupindo as escadarias e que por agora vão dificultando a minha marcha.




Depois do congestionamento inicial onde fui obrigado a avançar inserido num autêntico mar de gente, consigo agora andar quase à vontade. A cada novo passo que dou vou-me pouco a pouco libertando daquela teia de corpos humanos que de certa forma me condicionava a progressão. Já quase não há visitantes ruidosos, munidos de selfie stiks que se abstraem completamente da beleza envolvente preocupando-se unicamente em pousar de forma ridícula para fotografias cheias de estilo.

O pico norte, onde teve início esta aventura, vai ficando para trás e o teleférico que me transportou desde o centro de visitantes não passa neste momento de uma migalha quase imperceptível no meio da vegetação rasteira que preenche a encosta. 




Com o silêncio a paisagem parece ganhar outra dimensão. 
Diante mim tenho agora uma linha infindável de degraus que se prolongam no sentido ascendente, desaparecendo para lá de uma escarpa rochosa coberta de neve. Esforço-me por manter um ritmo lento mas constante enquanto avanço ao longo daquela espécie de trilho ladeado por correntes ferrugentas que ocasionalmente se encontram enfeitadas com fitas de cor vermelha que esvoaçam ao sabor da brisa. 
A primeira hora passa devagar. Vou avançando como gosto, sem pressas nem multidões e com tempo para fotografar, ouvir e deslumbrar-me uma e outra vez com tudo o que vejo.






Ultrapasso a linha dos 2000 metros e sem dificuldades de maior cruzo o Pico Intermédio  onde levo uma injeção de motivação extra que serve quase como rampa de lançamento para a minha chegada ao Pico Este, situado acima dos 2100 metros de altitude e onde conto chegar na próxima hora. 
E Chego!
Todo é novidade para mim uma vez que não tenho por hábito realizar caminhadas de montanha e para falar verdade pensei que esta experiência exigisse mais de mim. As pernas estão a aguentar sem grandes mazelas. Sinto-me bem e perfeitamente capaz de continuar ao próximo check point que com o ritmo que vou levando provavelmente será alcançado de forma natural.






Mas nem tudo foi tão fácil como naquele momento imaginei. Com a altitude o ar arrefeceu bastante e quando já avistava a recta final desta etapa, a respiração começou a trair-me. Naquele momento o corpo ressentiu-se do esforço despendido, e as pausas passaram a ser cada vez mais regulares. Cada um dos mais dos 3500 degraus já pisados acabaram por massacrar as minhas pernas de uma forma que nunca havia experimentado.
Devido ao cansaço este trecho revelou-se mais exigente do que perspetivei, sugando de mim uma parte significativa das minhas forças. 
Ainda assim consegui. Com a chegada aos 2160 metros, alcancei o ponto mais elevado de uma das cinco montanhas sagradas da China.
Estou radiante, mas as minhas pernas suplicam-me insistentemente por alguns minutos de descanso e aproveito para alimentar o corpo sentado naquela varanda debruçada sobre o resto do mundo.







Depois desta pausa precisei de pouco mais de meia hora para chegar ao Pico Oeste onde apanhei o teleférico que me levou de volta à base.
Sento-me no único lugar vago daquela pequena cabine de vidro e com os olhos postos na paisagem digo adeus à montanha sagrada. Antes de tocar o solo bebo as derradeiras gotas de água da minha garrafa e revivo mentalmente as últimas quatro horas. 


-INFORMAÇÕES ÚTEIS:

.COMO CHEGAR AO MONTE HUASHAN DESDE XI'AN
  • Apesar de Xi'an se encontrar a cerca de 120 km's é bastante fácil chegar ao Monte Huashan.
  • O primeiro passo é apanhar o metro (linha vermelha) até à estação Xi'an north Railway Station.
  • Desta estação ferroviária partem de forma frequente comboios de alta velocidade que na sua maioria realizam em cerca de 45 minutos o trajecto até à Gare de Huashan North.
  • Uma vez chegados à estação e já no exterior, há que apanhar o autocarro verde N°1 (gratuito) que realiza o trajecto até ao Centro de Visitantes.

.QUANTO CUSTA O ACESSO AO MONTE HUASHAN
  • O Acesso ao Monte Huashan tem um custo de 160CNY entre Março e Novembro e 100CNY no período que vai de Dezembro a Fevereiro.
  • Apesar de ser possível chegar a pé aos Picos Norte e Oeste através de uma gigantesca escadaria que percorre ambas as encostas, a maneira mais prática  de alcançar o topo é através do rápido e cómodo teleférico que funciona entre as 7:00 e as 19:00. Este serviço tem um custo de 280CNY/140CNY-Ida-e-volta/Ida (entre Março e Novembro) e 240CNY/120CNY-Ida-e-volta/ida (entre Dezembro a Fevereiro).

.QUANDO VISITAR
  • Os melhores períodos para visitar e percorrer os trilhos do Monte Huashan são entre os meses de Abril e Maio assim como entre Setembro e Outubro,uma vez que nestas alturas as temperaturas são mais amenas, evitando desta forma o frio dos meses de inverno e o calor abrasador dos meses de verão.
-OUTRAS CRÓNICAS SOBRE A CHINA:

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