quinta-feira, 3 de maio de 2018

.SEGUINDO OS PASSOS DO IMPERADOR NA CIDADE PROIBIDA-PEQUIM


Depois de quase duas noites sem dormir, percebo que o jet lag começa a deixar mazelas no meu corpo.
Estamos no inverno e apesar do céu azul, no ar paira um ventinho gelado que me obriga a calçar as luvas de forma a agasalhar as mãos enquanto percorro aqueles escassos metros entre o hotel e a estação de metro mais próxima. 
Ainda é cedo. Passam poucos minutos das sete de manhã, mas as ruas por onde vou caminhando já se encontram bem preenchidas de gente que seguem com certeza a caminho dos seus empregos. Quanto a mim e depois de uma curta viajem numa carruagem de metro a rebentar pelas costuras, chego ás imediações da Praça Tiananmen de onde já consigo avistar a grandiosa entrada da Cidade Proibida, que não tarda nada me dará acesso a um local que se manteve fechado ao mundo exterior durante cerca de quinhentos anos.


Não tenho bilhete, e já para lá do fosso que circunda o complexo tento em vão questionar alguns passantes sobre o local onde poderei eventualmente adquirir o ingresso. A pergunta é repetida vezes sem conta, mas a comunicação revela-se quase tão difícil como encontrar o imperador no meio de toda aquela multidão.
O tempo passa sem que eu encontre o tão desejado ponto de venda. Perto das oito horas e já em desespero, dirijo-me a um grupo de três jovens chineses na esperança que me saibam dar a informação que procuro.
Também não falam inglês...nem uma palavra!
Quase a perder a paciência insisto,precisto e volto a insistir.
"-TICKETS!WHERE CAN I BUY TICKETS?"
O silêncio por parte dos jovens revela total incompreensão sobre as minhas palavras que só são descodificadas graças à preciosa ajuda do tradutor que trago instalado no meu telemóvel.
O diálogo acaba facilitado pela tecnologia e fico então a saber que se existe uma bilheteria, eles não sabem onde fica e que seria bem mais cómodo se tivesse comprado o bilhete através da internet.
"Pois...agora é tarde demais!"
De olhos postos nos pequenos ecrãs dos seus telefones, os meus amigos de ocasião, trocam meia dúzia de palavras em mandarim e de forma inesperada revelam-me que me podem comprar o bilhete...só precisam do meu passaporte.

Está feito! A compra é realizada ali mesmo a dois passos da entrada do grande palácio e a meia dúzia de minutos da abertura das portas.
Quanto ao preço, nunca fiquei a saber, pois aqueles três jovens fizeram questão de não receber um único cêntimo.
Desfaço-me em mil agradecimentos, troco contactos, faço uma foto e despeço-me convencido que talvez estas novas gerações de chineses já terão uma maior facilidade em partilhar.
O meu primeiro dia em Pequim começa com um sorriso no rosto!



Ás oito e meia em ponto as portas são abertas e os muitos visitantes que por ali aguardam vão entrando num ritual estranhamente ordeiro.
Sem grandes pressas e tentando absorver tudo o que me rodeia, cruzo o enorme Portal Meridiano que me conduz a um enorme pátio onde cinco pontes de mármore branco atravessam o Rio das Águas Douradas que devido ao muito frio que se faz sentir se encontra totalmente congelado.



Vou-me deixando ficar para trás e rapidamente percebo que aquela multidão avança numa espécie de enxurrada incontrolável, entupindo num ápice a escadaria do Portão da Suprema Harmonia, libertando totalmente os acessos laterais. É para lá que sigo. Depois de me cruzar com um dos grandes leões que montam guarda ao edifício, percorro só com a companhia da minha sombra uma série de alas que uma após outra me fazem avançar até aos Palácios Ocidentais.No seu extremo encontro uma passagem que me dá acesso ao Jardim Imperial que partilho com um número considerável de outros visitantes.










Ao fim de mais de uma hora de completo deleite em que percorri a Cidade Proibida de sul para norte, encontro-me aos pés do Portão da Grandeza Divina. Por agora é tempo de regressar ao ponto de partida. Deixo os edifícios centrais para mais tarde e opto por seguir pelo lado oposto, fazendo o caminho descendente que desta feita e longe da multidão que por esta altura já invadiu o palácio, me leva a conhecer locais como a Galeria do Tesouro, a Ópera e o grande Painel dos Nove Dragões.

Mais um objectivo alcançado, e com o cartão de memória da minha máquina fotográfica bem recheado, estou de volta à Corte Interior onde o Hall da Suprema Harmonia chama a si todas as atenções. Galgo uma das escadarias que ladeiam a enorme Calçada de Mármore e aproximo-me o mais que posso da entrada daquele impressionante pavilhão onde sob o imenso telhado amarelo se encontra o mais pomposo dos tronos usados pelo imperador.
Pela primeira vez desde que cheguei à Cidade Proibida tenho alguma dificuldade em me movimentar e é por entre empurrões e cotoveladas que faço meia dúzia de fotos, abandonando o local logo de seguida.










A partir deste momento a densidade populacional por metro quadrado parece aumentar a cada passo que dou. Ainda assim e sempre pelo eixo central do complexo vou avançando para norte, passando por palácios, salões cerimoniais, pátios e escadarias mais ou menos elaboradas.

No meio daquele formigueiro desorganizado, vou tentando arranjar motivos de interesse que me façam prolongar a visita, mas a minha motivação vai sendo esmagada e absorvida por toda aquela algazarra. 
Interpreto isto como um sinal que a minha passagem pela Cidade Proibida está prestes a cessar. É um convite implícito para uma despedida prematura.
Olho à minha volta e tento guardar em mim toda aquela beleza.

O que diriam os vinte e quatro imperadores se aqui voltassem e vissem que mais de meio século depois o seu refugiu intransponível caiu aos pés de uma "coisa" chamada turismo?

-OUTRAS CRÓNICAS SOBRE A CHINA:
   
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