sexta-feira, 15 de março de 2019

.CHERNOBYL - QUANDO O SONHO SE TRANSFORMA EM PESADELO


Uma cancela de ferro assinala o ponto de transição entre o mundo real e um mundo proibido. É uma espécie de fronteira imaginária patrulhada por militares de olhar frio, que de forma quase inglória montam guarda a um inimigo invisível e implacável que sem aviso prévio invadiu uma região, evacuou cidades e aniquilou quase tudo o que se cruzou no seu caminho. 
Avançamos os primeiros quilómetros em silêncio e mesmo que aparentemente nada tenha mudado na paisagem que desfila para lá das janelas da carrinha que nos transporta, o bip bip dos medidores de radiação faz-se subitamente ouvir, lembrando-nos que apesar de moribundo o tal inimigo ainda se esconde nos terrenos que percorremos.

Chernobyl foi muito mais que uma história que nunca deveria ter acontecido. Foi a interrupção precoce e forçada da vida de muitos dos que ali habitavam, assim como um virar de costas aos lares com uma promessa de retorno que acabou por nunca acontecer. 
Hoje, passados mais de trinta anos, a presença humana resume-se aos diversos grupos de visitantes que tal como nós ali chegam trazidos pela curiosidade e que ironicamente são o único corpo estranho neste cenário de certa forma macabro.










Em Pripyat a vida deixou de fazer sentido. Os prédios de luxo e todas as infra-estruturas que fizeram sonhar os que ali residiam são hoje ruínas mórbidas escondidas por entre uma densa vegetação que apesar do veneno não virou costas à vontade da natureza.
Para lá das janelas abertas vislumbram-se pilhas de objectos pessoais que no meio do entulho não são mais que tristes testemunhos dos tempos em que tudo era perfeito.
Há por ali espalhadas mil e uma estórias de mil e uma personagens diferentes. Pessoas que sem escolha aparente foram obrigadas a partir, ficando de súbito à mercê de um destino pouco claro, enfrentado com meia dúzia de pertences amontoados à pressa no interior de uma simples mala.









Depois de pouco mais de uma hora também nós temos de partir, nosso tempo em Chernobyl esgotou-se. Amanhã, depois de amanhã e talvez nas próximas centenas de anos tudo continuará igual. Apesar de não serem bem-vindas, as memórias do dia em que tudo mudou continuarão a pairar sobre os terrenos doentes desta região do país. 

Visitar a área do acidente de Chernobyl foi uma das principais razões que nos levou até à capital Ucraniana. Queríamos pisar o palco de uma da maiores catástrofes nucleares que o planeta já testemunhou e esta passagem por Kiev acabou por ser o pretexto que precisávamos para concretizar os nossos intentos. 

A nossa visita à zona de exclusão de Chernobyl foi organizada e realizada pela empresa CHERNOBYL TOUR. Gostámos bastante do serviço prestado e não temos qualquer problema em aconselhar.


Podem acompanhar as nossas viagens e ver as fotos deste e de outros destinos na página do Diário das Viagens no Facebook. 

2 comentários:

  1. Fico com peso de consciência de gostar das fotografias. Mas realmente, apesar do cenário ser triste, as fotografias estão muito bonitas.
    Uma história que nunca deveria ter acontecido e que vocês retratam com sentimento. Gostei muito.

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    1. Obrigado pelas palavras Zélia. Escrever sobre Chernobyl, e exprimir de uma forma sóbria as sensações que senti não foi tarefa fácil mas acho que consegui transmitir de forma clara o que existe naquele pedaço de mundo abandonado. Beijinhos e boas viagens!

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