quinta-feira, 21 de agosto de 2014

VISITAR HANOI - DOIS DIAS NA CAPITAL DO VIETNAME


Chegámos a Hanoi depois de um curto voo que nos transportou desde Hué e à chegada fomos recebidos pelo mesmo tempo chuvoso que nos acompanhou durante a nossa passagem pela antiga cidade imperial. Já no hall principal do aeroporto e depois de consultar os preços dos vários operadores ali presentes, optámos por realizar o trajeto até à zona central da capital, numa espécie de táxi colectivo. Ainda que todos os assentos da carrinha já estivessem preenchidos, isso acabou por não ser impeditivo para que se arranjasse espaço para nós, que a muito custo nos entalámos no meio dos quatro passageiro que ocupavam a fila traseira. Sem surpresas, percebemos que o conforto não era propriamente a grande preocupação de quem geria aquele negócio, mas os três dólares pagos por um trajeto de mais de 40km's justificavam de certa forma que nos sujeitássemos ás condições impostas.
O homem por detrás do volante, talvez demasiado familiarizado com o trânsito caótico, acelerava para lá do aceitável, deixando-nos um tanto ao quanto inseguros quanto ao desfecho daquela corrida que parecia nunca mais terminar. Entrámos finalmente no perímetro da cidade e já num ritmo mais contido fomos parando aqui e ali, descarregando passageiros e mercadorias até que ficámos só os dois.
Tal como havia ficado acertado, o transporte levou-nos até à porta do hotel que trazíamos previamente reservado. Fez-se o check-in, toma-se um duche rápido e sem tempo a perder voltámos ás movimentadas ruas da capital do Vietname. 


.DIA 1

Tínhamos guardado dois dias para conhecer a cidade e uma vez que estávamos instalados na área do Old Quarter, decidimos que para já iríamos privilegiar esta zona que é um dos mais antigos distritos da cidade e onde ainda é possível encontrar algumas construções típicas que conseguiram sobreviver ao passar dos séculos.


Almoçámos na primeira banca de rua que connosco se cruzou e demos então início ao nosso itinerário com a visita a um pequeno santuário budista que apesar de não ficar longe acabou por ser difícil de encontrar. O Templo Bach Ma que comemorou o milésimo aniversário em 2010 é, segundo percebemos, o mais antigo da cidade, chegando a ter recebido a visita de alguns dos Imperadores. Ainda que se situe numa rua bastante movimentada, a verdade é que assim que acedemos ao interior do espaço fomos quase de imediato envolvidos por uma calma que parecia não fazer sentido naquele contexto de permanente movimento. 
O Templo não é muito grande e apesar da visita ser rápida, achamos que vale a pena conhecer este local, não só pela sua beleza mas acima de tudo pela sua importância histórica.





O regresso ao mundo real foi inevitável e para já o nosso objetivo era visitar o Complexo Ho Chi Minh, onde se encontram o Mausoléu que guarda o corpo do antigo presidente, a sua Antiga Residência assim como o Palácio Presidencial.


De mapa na mão percorremos as congestionadas ruas de Hanoi, até chegarmos à Praça Ba Dinh, considerada a maior área pública da cidade. Ao longe, completamente destacado da paisagem envolvente ergue-se o impressionante edifício do Mausoléu, que se encontra aberto ao público ás terças, quintas, sábados e domingos das 08:00am ás 11:00am. As visitas são interrompidas durante os meses de Outubro e Novembro, altura em que o corpo viaja até a Rússia para ser sujeito a trabalhos de conservação.
Apesar do acesso ser gratuito está obviamente sujeito a algumas regras:
-Dentro do edifício convém manter uma postura de respeito.
-O visitante não se pode fazer acompanhar de mochilas, máquinas fotográficas/video e telemóveis.
-Os homens não podem entrar com calções (só calças) e as mulheres deverão cobrir os ombros.




Depois de uma dezena de minutos numa fila que avançou sempre a bom ritmo, acedemos ao interior do edifício e num passo mais ou menos acelerado (sem possibilidade de paragem) vimos o corpo de Ho Chi Minh que se encontra dentro de um caixão de vidro. Apesar da quantidade de pessoas que se amontoavam à entrada desencorajarem até os mais persistentes, temos de admitir que todo o processo está espantosamente bem organizado, permitindo que a visita a este local decorra de forma rápida e ordeira.

O Complexo Ho Chi Minh ia-nos mantendo ocupados e as nossas atenções viravam-se agora para o Museu Ho Chi Minh que terá sido inaugurado em maio de 1990, data em que se comemorou o centésimo aniversário do antigo presidente. São diversas as exposições ali presentes, contudo e como seria de esperar, tudo gira em torno do carismático líder. No primeiro andar, para além de diversos objetos pessoais, estão também expostos alguns rascunhos de discursos, documentos, obras literárias e fotografias de momentos importantes da sua vida.

Museu Ho Chi Minh
Alguns livros pessoais do antigo presidente
No andar superior deparámo-nos com várias exibições temáticas que levam o visitante a viajar através de diversos acontecimentos que marcaram a história do Vietname. Também aqui Ho Chi Minh mantém a sua presença e no cimo das escadas, em local de destaque, ergue-se uma enorme estátua do grande herói nacional que mais parece estar a dar as boas vindas a quem por ali passa.

  

Ainda na área do complexo e como todos os pontos de interesse se encontram relativamente perto uns dos outros, bastaram-nos alguns minutos para que chegássemos a um dos locais que muitas vezes ouvíramos falar enquanto organizávamos o nosso roteiro pela capital. One Pilar Pagoda é um pequeno templo budista que e tal como o nome indica, foi construído sobre um único pilar de betão e ainda que seja uma réplica de uma outra maior que aqui existiu continua a atrair fiéis e principalmente turistas.




Para darmos por concluída a nossa passagem por esta área da cidade, fomos conhecer a Antiga Residência do carismático chefe de estado assim como o Palácio Presidencial, ambos os locais estão agrupados num único espaço situado do lado direito do mausoléu. Abraçada por uma luxuriante área florestal encontra-se a modesta casa usada por Ho Chi Minh durante um largo período e na qual optou muitas vezes por trabalhar, chegando mesmo (em certas ocasiões) a receber visitas de estado. Ao redor deste espaço central tivemos ainda a oportunidade de ver uma mão cheia de antigos veículos que estiveram ao serviço do presidente enquanto este se manteve no ativo. 




Ho Chi Minh sempre se assumiu como uma pessoa simples e ainda que lhe tenha sido dado a possibilidade de morar no palácio presidencial, optou desde logo por ficar nesta modesta casa de madeira situada a poucos metros do seu local de trabalho. O piso térreo é ocupado por uma zona de estar e de refeições ao passo que o andar superior é onde se situam o quarto e um pequeno escritório.

Casa de Ho Chi Minh
Interior
Jardins exteriores
Estátua de Ho Chi Minh
No final seguimos em direção ao Palácio Presidencial e só à nossa chegada percebemos que não se encontra aberto ao público, sendo-nos unicamente possível admirar o exterior deste bonito edifício de estilo colonial construído pelos franceses para acolher o governador da Indochina.

Palácio Presidencial

Numa altura em que o tempo piorava a olhos vistos, regressámos ao Old Quarter em busca de um local que nos havia sido sugerido e no qual poderíamos beber um típico e delicioso café com iogurte. Ainda que à primeira vista as indicações que nos foram transmitidas parecessem ser bem precisas, acabámos por andar ás voltas por largos minutos, chegando mesmo a pensar em desistir das nossas intenções. Finalmente a nossa persistência foi recompensada e sem saber muito bem o que esperar percorremos um estreito corredor que se alongava sob a quase imperceptível placa que indicava o tal Café Pho Co. Subitamente o ruído diluiu-se num silêncio quase incomodativo. Estávamos agora num pátio interior ladeado por casas privadas que se empilhavam desde o chão até várias dezenas de metros acima de nós. Vinda não sei bem de onde, surge uma jovem que nos confirma que estamos no local que tanto procurávamos, convidando-nos a subir uma escada circular até ao último piso. Obedecemos e meio desconfiados com o que iríamos encontrar lá fomos galgando patamares até que desembocámos num espaço que nunca imaginaríamos encontrar para lá da densa malha urbana da capital. Ocupámos uma das mesas existentes junto ao varandim e desfrutámos da incrível vista sobre o Lago Hoàn Kiêm ao mesmo tempo que  bebíamos o merecido café.


O dia recua e daquele local privilegiado vemos Hanoi ser lentamente invadida por pequenos pontos de luz. Talvez tenha sido esta a melhor forma de dar por terminada esta primeira incursão pela cidade. 


.DIA 2

Pela primeira vez nesta viagem dormimos até mais tarde e já para lá das dez da manhã, iniciámos o nosso segundo dia em Hanoi exactamente no mesmo local onde havíamos terminado na véspera.
Com o Lago Hoàn Kiêm a servir de pano de fundo, vamos comendo uma sandwich ao mesmo tempo que consultamos o mapa, tentando organizar um itinerário mais ou menos completo que nos dê a oportunidade de conhecer mais um pouco da capital do Vietname. À nossa frente, sentado num dos muitos bancos de jardim ali existentes, temos um homem que sem entendermos muito bem porquê nos observa há largos minutos. Talvez porque durante esta viagem tenhamos sido abordados em inúmeras ocasiões por falsos amigos que insistentemente nos tentaram impingir algo, achámos que a história se iria repetir mais uma vez e nem levantámos os olhos quando se aproximou.
O Homem já com uma certa idade e vaidosamente fardado com trajes militares abordou-nos, e num inglês pouco compreensível tentou perceber se precisávamos de ajuda. Perante aquela situação inesperada e numa atitude de auto-defesa recusámos prontamente a oferta. Ainda que a nossa tentativa de evasão tenha surtido efeito por alguns minutos, aquela personagem sui generis não se deu por vencida, voltando a contra-atacar com algumas perguntas de circunstância.
-"De que país são?"
-"...há quanto tempo estão no Vietname?"
-"...estão a gostar?"
-"...e o que acham de Hanoi?"
De forma paciente fomos-lhe satisfazendo a curiosidade e pouco a pouco no rosto fechado daquele amigo de ocasião, surgiu um sorriso quase inocente que nos conquistou e nos fez ficar ali à conversa por mais de uma hora.

 

Entre outras coisas confessou-nos ser um orgulhoso vietnamita que em tempos fez parte da história do país e que na sua tenra idade havia pertencido ao exército que em abril de 1975 derrotou as tropas do sul e os americanos. Guerra essa que para ele acabou por ter um sabor agridoce, uma vez que dois dos seus irmãos acabaram por ser vítimas das atrocidades cometidas pelas tropas norte americanas. Apesar da tristeza causada por esse trágico acontecimento, confessou-nos que o tempo se tinha encarregado de apagar as mágoas e que hoje em dia não guardava qualquer rancor pelas pessoas que segundo ele ajudaram a tornar o Vietname um país ainda mais forte.

Esta foi seguramente a melhor conversa que tivemos durante a nossa viagem e aquela personagem sinistra, que inicialmente nos inspirou pouca confiança, acabou por se revelar bastante afável e repetidamente recordada nos tempos que se seguiram.


 

Despedimo-nos, seguimos o nosso caminho e a certa altura fomos atraídos por uma estridente mistura de sons ritmados que pareciam ter tomado conta de uma boa parte daquela zona da cidade. Um alarido quase contagiante fazia movimentar o corpo de dezenas de pessoas que num ritual diário se juntam nesta área para se exercitarem. Aquando da nossa passagem por Ho Chi Minh City havíamos testemunhado algo semelhante, mas aqui tudo parece acontecer numa escala superior, uma vez que ao longo das várias centenas de metros que se seguiram nos cruzámos sucessivamente com pequenos grupos de simpáticas senhoras, todas elas com idades a cima dos 60 anos.



Ainda contagiados por esta incrível onda de boa disposição fomos caminhando até chegarmos a uma ponte de madeira que nos permitiu aceder a uma ilha situada no meio das águas do lago Hoàn Kiêm.  
De acordo com uma lenda o Templo Ngoc Son foi erguido para assinalar o local onde o imperador Le Loi recebeu dos céus uma espada sagrada que usou para combater, derrotar e expulsar as tropas chinesas que ocupavam o Vietname. Depois da Batalha a espada foi devolvida aos deuses através de uma tartaruga gigante que habitava no lago.

No interior da Pagoda além de um altar repleto de oferendas deixadas pelos fiéis, está também exposta a tartaruga que muitos acreditam estar na origem do tal acontecimento que a certa altura terá mudado a história do país.

 

 


Ainda nas águas do lago Hoàn Kiêm, mas mais a sul ergue-se uma torre de pedra à qual os locais dão o nome de Thap Rua (torre da tartaruga) e que supostamente também estará de alguma forma ligada à lenda. 
Hoje estávamos um pouco mais à vontade no que diz respeito aos locais a visitar, permitindo-nos desta forma andar calmamente tendo somente como destino alguns pontos de referência traçados no nosso mapa. 
Após uma longa caminhada ao redor do lago, afastámo-nos e penetrámos num  emaranhado de ruas que quase sem querer nos conduziram à bonita Catedral St. Joseph ou Catedral de Notre-Dame de Hanoi.

Thap Rua (torre da tartaruga)

Tendo sido construído em 1886 pelos franceses, este é o mais antigo espaço católico da cidade assim como a sede da arquidiocese de Hanoi.
A entrada é livre e diariamente por volta das 11:00 am ainda é rezada uma missa em francês. A catedral é igualmente o ponto de reunião da comunidade cristã durante o período natalício.

Por aqui e à semelhança de Ho Chi Minh City, também nos deparámos com alguns testemunhos do período da colonização francesa. Para além da catedral, do Palácio Presidencial (que visitamos na véspera), ainda nos cruzámos com a bonita Ópera de Hanoi e com o ambiente cosmopolita do famoso Bairro Francês (French Quarter) situado mais a sul e onde abundam palacetes, casas e igrejas de estilo colonial. 
Muitos destes edifícios têm vindo a ser restaurados e atualmente acolhem hotéis e restaurantes de luxo.

Ópera de Hanoi (French Quarter)
Por falar em restaurantes e já numa altura em que os ponteiros do relógio se aproximavam das quatro da tarde, apeámo-nos num modesto restaurante local.
Ainda que andássemos à alguns dias com vontade de experimentar Bún Chà, adiámos propositadamente o nosso desejo uma vez que havíamos lido que seria em Hanoi que iríamos ter a oportunidade de comer o melhor e mais delicioso de todos.
O Bún Chà 34 é um estabelecimento simples, incapaz de entusiasmar os mais sofisticados mas o cheiro que paira para lá daquelas paredes não engana...aqui serve-se Bún Chà...e dos bons!



Entrámos, fizemos o pedido e misturámo-nos com os poucos clientes que àquela hora tardia comiam a sua refeição. Para lá do pequeno balcão e com uma eficácia digna de um grande chefe internacional, assistimos à preparação daquele farto pitéu que rapidamente ganhou lugar sobre a mesa de plástico que tínhamos diante nós.
Sob o olhar atento das meninas que tomavam conta do estabelecimento, deliciamos-nos com a melhor comida das últimas duas semanas.

Depois deste manjar dos deuses e com o dia a aproximar-se rapidamente do fim, regressámos à área do lago Hoàn Kiêm e em jeito de despedida dirigimo-nos para o Teatro Thang Long para podermos assistir ao famoso espetáculo das marionetas na água (Water Puppet Show). 
Com os ingressos comprados, ocupámos os lugares que nos estavam destinados e durante aproximadamente 45 minutos assistimos a uma engraçada representação do dia-a-dia do povo Vietnamita, assim como de algumas lendas e histórias locais. 
Não se pode dizer que o espetáculo seja algo de extraordinário, ainda assim e por se tratar de um dos acontecimentos culturais mais antigos do país é na nossa opinião uma experiência que deverá fazer parte do roteiro de quem visita o país.

Water Puppet Show
Water Puppet Show
Enquanto fazíamos o caminho de volta ao hotel, aproveitámos para comprar algo para comer mais tarde. A noite tomou conta da cidade e com ela trouxe uma daquelas chuvadas que nos obrigou a aligeirar o passo na última centena de metros. 
Amanhã por esta hora estaremos a bordo de um barco na maravilhosa Baía de Halong
Será que a achámos assim tão maravilhosa? A resposta está AQUI

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