sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

.CASCATAS DE TAT KUANG SI-A NATUREZA EM ESTADO PURO


O dia amanheceu tal como o anterior.Está frio e da janela do nosso quarto vejo os telhados da cidade de Luang Prabang cobertos por um espesso nevoeiro que me lembra os dias de inverno que deixei para trás,na Europa há pouco mais de 48 horas.
Passam poucos minutos das oito da manhã e o silêncio no hotel é total.Ainda não há movimentações.
Como estamos num quarto com casa de banho partilhada,aproveitamos a calmaria matinal para um relaxante duche quente que se prolonga por vários minutos.

Pouco depois estamos prontos para mais um dia.De casacos vestidos saímos à rua e percorremos as estreitas vielas ainda envoltas numa neblina agora menos intensa.
Hoje temos como objectivo visitar as cascatas de Kuang si e é na rua principal que com certeza encontraremos um tuk tuk partilhado que nos leve até lá.
De facto,somos abordados quase de imediato,por um sujeito que nos propõe os seus serviços,mas após alguma discussão o preço não nos agrada.Sem stress,há mais uns quantos ali à frente.
Um após outro vamo-nos cruzando com drivers que não estão dispostos a realizar o trajeto por menos de 30.000 kip por pessoa,valor que deve ser realmente o mínimo que iremos conseguir.
Tentamos mais uma vez e desta feita lançamos o valor de 25.000 kip.O homem parece renitente mas acessível a aceitar a nossa proposta e depois de um breve telefonema concorda em levar-nos pelo preço proposto,atirando de imediato:
"-Estejam aqui ás onze horas que tenho um grupo de pessoas,mas se vos perguntarem quanto pagaram,têm de dizer que foi 40.000 kip".
"-Combinado!"

Aproveitamos aquelas quase duas hora para dar uma volta pelo mercado diurno,repleto de bancas coloridas e onde tomámos o pequeno almoço.Umas sanduíches de frango e um saboroso café quente que teve o condão de aquecer os nossos corpos gelados.


À hora marcada e já com uma temperatura agradável e o sol a brilhar no céu agora azul,lá estávamos nós no local combinado com o homem que por esta altura tentava arranjar mais alguns clientes de ultima hora.
Ao ver-nos,e com um discreto movimento volta a relembar-nos que o preço oficial é de 40.000 kip,fazendo-nos logo de seguida sinal para entrar para a traseira daquela furgoneta que por estas bandas é apelidada de tuk tuk.
Lá dentro já se encontram um japonês,dois sul coreanos e uma tailandesa que parece estar ligada à corrente de tão rápido que fala.Pessoal simpático e de conversa fácil.
Tudo pronto,está na altura de seguir viagem.Pelo caminho ainda fazemos uma curta pausa para recolher mais passageiros.Duas brasileiras,mãe e filha,que queimavam os últimos cartuchos no Laos depois de uma viagem de trinta dias pelo Sudeste Asiático.
Agora sim,o grupo está completo e Luang Prabang vai ficando para trás.
O tuk tuk avança devagar e a certa altura até parece que o tempo passa mais depressa que os quilómetros.Quanto mais nos afastamos do ponto de partida,mais degradada se torna aquela estrada que serpenteia por entre paisagens pitorescas e campos agrícolas onde homens e mulheres desempenham com afinco a sua labora quotidiana.O Laos vai-se dando a conhecer a cada curva que damos.




Uma hora e muitos safanões depois chegamos.O parque de estacionamento onde somos deixados não é mais que um descampado envolto numa nuvem de poeira permanente no meio da qual um homem de aspecto franzino se esforça para manter a ordem daquelas carrinhas,tuk tuk's e autocarros que chegam e partem constantemente.O espaço é complementado com várias dezenas de barracas de madeira,onde estão instalados pequenos comércios que servem de sustento ás gentes locais.
Combinamos com o driver o horário de regresso e o ponto de encontro.Três da tarde.Estão todos de acordo.
Parece-me bem e assim teremos tempo suficiente para visitar todo o parque sem que se torne saturante.

A bilheteria é logo ali.
Numa folha de papel afixada pode ler-se:Ticket- 20.000 kip Foreigner/5.000 kip Locals.
No Laos e à semelhança de outros países que visitámos os estrangeiros são sinônimo de dinheiro e como tal sentem na pele um certo aproveitamento no que diz respeito a taxas e outros quês suplementares.
Com os ingressos comprados entramos pelo enorme portão que guarda aquela espécie de mundo jurássico onde um trilho de terra húmida nos conduz por entre árvores que provavelmente já serão centenárias.Apesar do sol não conseguir atravessar aquele espesso tecto de folhas que se ergue sobre as nossas cabeças,o calor é agora mais forte e a humidade de talvez uns 90% faz com que transpiremos de forma mais intensa.

Os primeiros passos levam-nos até ao centro de protecção e recuperação de ursos,onde varias dezenas destes animais vivem uma segunda oportunidade depois de terem sido resgatados de situações de cativeiro negligente.Esta não será com certeza a vida perfeita,mas pelo menos aqui são bem tratados. 




Despedimo-nos dos ursos que a esta hora se deliciavam com pedaços de fruta,dados momentos antes,por um funcionário do parque. 
Ao longe ouvimos o som da água que anuncia que já estamos perto das famosas cascatas. À medida que nos aproximamos,o caminho vai ficando cada vez mais lamacento,o que nos obriga a caminhar com cuidado redobrado.
Por fim e por entre a densa vegetação temos o primeiro vislumbre das piscinas naturais.O cenário é sem dúvida mais bonito do que imaginava.
Aligeiramos o passo para nos aproximarmos o mais rápido possível daqueles tanques repletos de águas azul turquesa que contrastam com o verde intenso da floresta envolvente.


Olho ao redor e é-me impossível não comparar este local com algumas secções do Parque dos Lagos Plitvice na Croácia que visitei anos anos.As semelhanças são por demais evidentes.
Uma após outra,as piscinas sucedem-se como carruagens de um comboio que trepa uma montanha.Uma,duas,outra e mais outra,algumas maiores outras mais pequenas mas todas elas pintadas com o mesmo tom de azul.
Ao contrário do que seria expectável são poucos os que se banham.Talvez ainda seja cedo ou então estão todos concentrados noutra zona do parque mais adiante.
Aproveito aquela calma temporária para fazer algumas fotos.







Vamos avançando sem grandes pressas,e pouco a pouco de forma cada vez mais intensa começamos a escutar vozes de quem parece estar a divertir-se.
Não demoramos muito até descobrir o motivo de toda aquela agitação.Diante nós temos uma piscina visivelmente maior que as restantes,alimentada por uma incrível cascata onde meia dúzia de pessoas se banham,enquanto nas margens se agrupam algumas dezenas de outros turistas,entre os quais as duas simpáticas brasileiras que nos acompanharam desde Luang Prabang.
A vontade de entrar na água é quase impossível de controlar.Num movimento instintivo dispo a t-shirt húmida,descalço as sandálias e sem grandes rodeios subo para um tronco de onde me lanço para o interior daquele "mar" azul.
O choque é quase imediato!A água está fria...gelada e adormece por breves segundos o meu corpo que pouco depois,já recomposto do impacto inicial,nada em direção à cascata.
Após alguns momentos de reflexão a Paula ganha coragem suficiente para se juntar a mim.Mas é sol de pouca dura.A baixa temperatura da água faz com que me abandone ao fim de um par de minutos.
Apetece-me ficar ali e saborear aquele momento único,envolto naquele raro pedaço de natureza em estado puro,tendo nesta altura por companhia somente dois ou três corajosos que tal como eu se recusavam a abandonar aquele local fantástico.






Inevitavelmente o corpo cedeu e da mesma forma intempestiva que entrei na água senti agora a necessidade de sair rapidamente e enxugar a pele arrepiada.Sentei-me ao sol com o objectivo de repor a temperatura corporal,aproveitando para dar umas dentadas nas sandes que trouxemos nas mochilas.

Já só temos pouco mais de uma hora até atingirmos a meta de tempo combinada com o driver.Voltámos a calçar as havaianas e abandonamos aquele espaço que se encontra cada vez mais preenchido de gente.Só a piscina natural onde há pouco me banhei é que continua praticamente deserta.
Pé ante pé e sempre com cuidado para não escorregar,vamos seguindo o trilho que corre paralelo ás piscinas que se alinham uma após outra,parecendo não ter fim.Ao longo do caminho sempre envolto em vegetação,cruzamo-nos com famílias locais que ocupam algumas mesas de madeira com picnic's improvisados regados com a inevitável BeerLao.A humidade é cada vez maior e os nossos corpos que à pouco tremiam de frio,transpiram agora de tal forma que ensopam as t-shirts que trazemos vestidas.Dispo a minha e caminho em tronco nu,mesmo sabendo que serei presa fácil para os mosquitos que nos vão acompanhando.





Ao fim de uns vinte minutos de marcha somos surpreendidos com aquela que será muito provavelmente uma das mais surreais visões desta nossa viagem pelo Laos.À nossa frente temos diversas cascatas gigantescas que se erguem a várias centenas de metros de altura e que debitam milhares de litros de água que alimentam de forma constante as piscinas que compõem o parque.
Comprámos uma cerveja de um litro e ali ficámos sentados a admirar aquele quadro de proporções épicas,sempre com os olhos no relógio para não deixarmos passar a hora de regresso à base.
E sem atrasos estávamos de volta.Esperava-nos mais uma hora de muitos tropeções até Luang Prabang.


Todas as crónicas sobre o Laos:
Cascatas de Kuang Si
Os Templos de Luang Prabang
Guia Prático de Luang Prabang
Vang Vieng,o paraíso improvável
Blue Lagoon,Vang Vieng
Guia Prático de Vang Vieng
Vientiane
Buddha Park,Vientiane

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