quinta-feira, 24 de maio de 2018

.PINGYAO, UMA VIAGEM À CHINA DE OUTROS TEMPOS


É-me difícil eleger qual o local que mais me fascinou durante a minha curta viagem pela China. Na verdade foram vários, todos espetaculares e a cidade de Pingyao ficará indiscutivelmente inserida na lista de memórias especiais que me acompanharão muito para além dos dias que por ali permaneci.
Esta que é considerada a antiga cidade mais bem conservada de toda a China, foi na realidade um destino que esteve para não ser. Um ponto que se manteve intermitente até praticamente ao derradeiro minuto, mas que num impulso acabou por entrar nos meus planos de viagem. E ainda bem! 

Sabia que tinha de acordar cedo. Naquela manhã a cidade recebe-me com frio e envolta numa ténue neblina que acentua o ambiente enigmático das ruas onde alguns habitantes já circulam. No chão e sobre os telhados vejo pequenos resquícios de gelo que me dão a entender que durante a noite esta zona foi brindada com alguns flocos de neve.

Ainda que sem exageros o movimento vai-se intensificando e nesta minha incursão matinal cruzo-me com homens e mulheres que de forma descontraída vão fazendo as primeiras compras do dia.
Entretenho-me a fotografar o quotidiano e o lado mais genuíno destas gentes.Pessoas simples com os anos marcados nas rugas, que poderiam muito bem ser as mesmas que há um ou dois séculos pisavam estas lajes escorregadias que hoje me levam sei lá onde.






Faço uma pausa. Enquanto bebo um chá e como uns biscoitos comprados numa banca de rua, apercebo-me que um grupo de velhos sentados ali ao lado me olham com curiosidade. Aceno com um ligeiro balançar da cabeça e num ápice aquela barreira é quebrada com um sorriso que rapidamente se transforma num punhado de palavras que infelizmente não entendo.
O diálogo acaba por não avançar! 





O relógio aproxima-se das nove da manhã e a cidade movimenta-se agora a um ritmo e com uma intensidade bem diferentes daquela que testemunhei horas antes.Até o sol acordou, ganhando rapidamente a força necessária para romper a camada de nuvens que ainda há pouco cobria grande parte do céu.
Sem surpresa as principais artérias vão perdendo o encanto à medida que são inundadas por ondas de turistas locais que apressam a minha retirada para zonas menos preenchidas.
Ainda assim e antes de me afastar, opto por alimentar a alma com a visita a alguns edifícios carregados de história e onde cada detalhe encerra encantos que merecem ser descobertos ao pormenor. Estes antigos espaços são testemunhos melancólicos de um tempo que não volta mas que permanece gravado nas paredes, nos objetos e nos retratos que decoram aquelas salas hoje silenciosas. 





Agora sim, retiro-me para zonas mais interiores. 
De forma surpreendente basta-me caminhar cinco minutos para me afastar da confusão que reina na área mais central. O corrupio de jovens e menos jovens, de homens e mulheres, de compradores e vendedores, estancou-se para lá das ruas estreitas que agora percorro. Dá ideia que uma linha imaginária impede que os visitantes se desloquem entre estes dois mundos situados a escassos metros um do outro.
Estou de volta à China do passado. Caminho sem destino, apenas pelo prazer de ali estar e de descobrir por acaso pequenos tesouros.
A certa altura as pernas pedem-me para reduzir o ritmo e já perto do extremo sul da muralha sento-me nuns degraus que dão acesso a um templo, onde por momentos fico a observar o vai e vem das gentes locais. Vejo velhotes que sem pressa pedalam as suas bicicletas ao longo das ruas enfeitadas com lanternas vermelhas que balançam ao sabor do vento, delicio-me com as casas de tijolo cinzento, com as portas de madeira adornadas com vistosos puxadores e com a simpatia de uma velhota que meio envergonhada me tenta vender uns pauzinhos de incenso.






Naquele momento de descanso sou presa fácil para uma família que um pouco a medo me solicita que pose com eles para uma foto...e outra e mais outra. Os telemóveis vão aparecendo e o fotógrafo de ocasião vai disparando e registando aquele momento inesperado em que de repente me transformo em modelo fotográfico.
Sem querer parecer desagradável despeço-me, agarro na mochila e esgueiro-me para o interior do templo que naquela fuga improvisada me serve de porto de abrigo. 
No ar paira um ritmo quase hipnótico. Uma melodia que se repete e se propaga por todo o espaço, misturando-se de forma natural com o tilintar dos pequenos sinos metálicos que pendem dos telhados do santuário.
O vermelho é a cor predominante, aliás, tal como em grande parte dos templos que visitei. Dizem que atrai a boa sorte! É isso e o fumo dos incensos que ardem diante do edifício principal e trazem até mim um odor característico que depois de tantos dias na China já se tornou familiar. 




Faz-se tempo de almoçar até porque a energia acumulada pelo fraco pequeno almoço tomado horas antes, parece por esta altura já ser ter esgotado. Ainda assim e tendo em conta a urgência de situação, tento resistir à tentação de regressar ao rebuliço central onde certamente encontraria com mais facilidade um local que me permitisse saciar a fome.
Subitamente, no final da rua, vislumbro meia dúzia de banquinhos de plástico coloridos que sugerem a presença de um pequeno estabelecimento onde finalmente tenho a oportunidade de aconchegar o estômago com uma tigela de noddles paga a preço para chineses. 


No que resta do dia, além de visitar mais um punhado de locais que achei interessantes, calcorreei as muralhas que se alargam ao redor da cidade, e foi sentado aos pés de uma antiga torre de vigia que assisti ao momento em que o sol se foi deitar.
O céu cobre-se rapidamente de negro e pela cidade acendem-se milhares de lanternas que pintam as ruas de tons vermelhos, transformando-as num mundo habitado por sombras abstratas que vagueiam par a par com os passantes.
Aos poucos o silêncio volta a instalar-se trazendo com ele a pacatez do tal mundo de outrora e do qual me estou prestes a despedir.






Durante um dia percorri uma China do passado com hábitos do presente. Uma China com casas, ruas e até muralhas que com a ajuda da imaginação nos transportam para uma era em que no país não havia motas, nem as lojas de souvenirs que hoje preenchem grande parte das ruas principais.
São mais de dois mil anos de história encravados no interior de uma fortaleza que pouco a pouco vai sendo assaltada pelo poder avassalador do turismo. Um mal necessário que ainda assim e na minha opinião deveria ter um maior controlo por parte de quem tem esse poder.


-OUTRAS CRÓNICAS SOBRE A CHINA:



Podem acompanhar as nossas viagens e ver todas as fotos deste e outros destinos na página do Diário das Viagens no Facebook.

Sem comentários:

Enviar um comentário