domingo, 22 de maio de 2016

CONHECER O MELHOR DA CIDADE DE KASHAN - IRÃO


Yazd fica para trás.
Pela primeira vez desde que estou no Irão viajo de comboio e a experiência até agora não podia ser mais positiva. Cómodo, limpo, rápido e mais barato que o autocarro.
Sigo em direção a Kashan onde irei permanecer nos próximos dias, só ainda não sei quantos.  
O dia ainda agora nasceu. O comboio vai quase vazio e as poucas pessoas com quem divido esta carruagem estão quase todas a dormir.
As três horas que dura a viagem passam quase tão rápido como as paisagem que desfilam do outro lado da janela.


Chego, e já no apeadeiro sou obrigado a tirar o casaco. São nove da manhã e o sol não dá tréguas. Sou o último a abandonar a estação e no exterior não me deparo com taxistas chato. Talvez seja melhor assim!
Consulto o Google Maps Offline que me situa a cerca de cinco quilómetros do centro da cidade, e sem outras opções só me resta meter os pés ao caminho.
Percebe-se claramente que a cidade ainda está a acordar. Durante o trajeto cruzo-me com poucas pessoas e as muitas lojas que se alinham ao longo da avenida principal ainda se encontram fechadas.
Não trago nenhum alojamento reservado e como tal a primeira prioridade é arranjar um local em conta onde possa ficar na próxima noite. Um após outro vou visitando alguns dos hotéis indicados no guia Lonely Planet situados nesta área, mas os preços que me são pedidos, ultrapassam o que estou disposto a pagar.
A mochila ainda que não esteja muito pesada já começa a incomodar, muito por culpa do calor que se faz sentir e me vai fazendo transpirar as costas. As opções de alojamento indicadas no livro esgotam-se mas tenho a certeza que na zona da Old Town existem mais alguns hotéis baratos e é nessa direção que sigo a partir de agora.

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A sorte sorri-me e pouco depois já desfaço a mochila num bonito e aconchegante quarto do Noghli Historical House Hotel, onde por 700.000 IR tenho direito a um w.c. partilhado, wi-fi e pequeno almoço que sou convidado a tomar de imediato. 
O espaço é fantástico, talvez o mais bonito local onde fiquei durante esta viagem e tal como o nome indica, é uma casa tradicional com quartos situados ao redor de um agradável pátio central.



Depois de me ver livre da mochila grande, lanço-me à conquista da cidade que é famosa pelas suas Casas Históricas. Não as visito de imediato porque ao que parece a melhor altura para o fazer é ao final do dia.
Para já quero ir até ao Bazar que segundo ouvira dizer é um dos mais bonitos do país. Neste trajeto, em vez de seguir pela rua principal, opto por me embrenhar pelas ruelas da Old Town onde abundam habitações em tudo idênticas àquelas que tinha visto em Yazd, mas que aqui aparentam ser mais recentes. Passo por uma padaria onde um homem de meia idade trabalha sozinho. Provavelmente prepara o pão para vender ao final da tarde e aquele cheiro delicioso acaba por me fazer ficar com água na boca. Não resisto e decido comprar um para o almoço.
O homem não fala inglês e por gestos tento perceber quanto custa um daqueles pães acabados de fazer, expostos sobre uma mesa de madeira. Sem soltar uma única palavra o sujeito pega num, estendendo-o na minha direção. Volto a perguntar: -"how much?"
O homem solta umas palavras que não compreendo ao mesmo tempo que vai enfiando num saco aquele enorme pão redondo, lançando-o de seguida sobre as minhas mãos.
Insisto mais uma vez que pretendo pagar.
Ele sorri e volta e soltar umas palavras em farsi que culminam com um "no money, no money!".
Agradeço a simpatia e peço para lhe tirar uma foto, pedido que é aceite com um simples abanar de cabeça.
Meto o meu almoço na mochila, despeço-me e enquanto me afasto não paro de pensar na bondade e na generosidade destas pessoas que tantas vezes me têm surpreendido ao longo desta viagem.


Continuo pelas ruas estreitas daquela zona, esforçando-me para não me desviar muito do trajeto que tracei na minha cabeça e que me leva até à avenida principal onde o intenso movimento de pessoas me mostra que já devo estar perto do Bazar.
Rapidamente dou com o local e ainda no exterior, entro numa espécie de mercearia onde compro uma garrafa de água, umas bolachas e uma embalagem de queijo que não tarda nada acompanhará o pão que trago na mochila.

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O ambiente que se vive no Bazar não se revela muito diferente daquele que testemunhei nos dias anteriores, mas ainda assim há algo que o diferencia dos demais. 
Não são as pessoas, nem as bancas, nem os cheiros, nem as cores. A grande diferença não se encontra ao nível do solo mas sim bem por cima das nossas cabeças. Sobre mim erguem-se deslumbrantes cúpulas trabalhadas que quase me obrigam a caminhar de olhos no teto.
A minha atenção é agora sucessivamente desviada para aquelas estruturas monumentais. Faço uma pausa, sento-me num pequeno degrau e ali permaneço por longos minutos a apreciar aquela obra de arte à qual os locais que ali passam diariamente parecem não mostrar grande interesse. Como é possível?



Ao ver-me ali sentado, um senhor que se encontra à porta de uma das lojas, diz-me que existe uma outra sala com várias cúpulas ainda mais bonitas, indicando-me a direção a seguir.
Quando pensava que seria difícil encontrar algo que suplantasse o que já havia visto, segue-se mais um momento de autêntico deslumbre. Sobre mim tenho três enormes cúpulas, cada uma delas com um buraco por onde entra a luz do sol. Ao que parece, o espaço encontra-se a sofrer alguns trabalhos de conservação o que faz com que por agora seja o único visitante naquele recanto do bazar.


Abandono o Bazar e procuro um local tranquilo onde possa comer o farnel que trago na mochila. A esta hora as sombras escasseiam e com o calor cada vez mais forte decido regressar ao hotel onde certamente encontrarei um ambiente mais fresco.
Instalo-me numa das mesas do pátio do alojamento e enquanto almoço travo conhecimento com o Gregory, um Neozelandês que vive em Londres e que me vai falando da sua viagem de um ano que teve início na Turquia e terminará lá para Janeiro no seu país natal. 
A conversa estende-se por um bom bocado e acabamos mesmo por combinar uma ida ao deserto de Maranjab no dia seguinte, partilhando obviamente as despesas. Como este era um dos locais que queria visitar enquanto estivesse em Kashan, falámos com com o rapaz da recepção que se comprometeu em nos arranjar um táxi. Trinta euros é o preço a pagar. Quinze euros para cada um. 

Despeço-me do Gregory que não parece disposto a enfrentar o calor e regresso ás ruas de Kashan, agora sim para visitar as casas históricas. 
Sei da existência de um bilhete combinado no valor de 350.000 IR que inclui a entrada no Hammam Sultan Amir Ahmad,nCasas Abassiana e Tabātabāei, e que me permitirá poupar 100.000 IR.

Olho para o mapa, traço um roteiro que certamente me manterá ocupado durante o que falta do dia e sigo na direção da Casa Tabātabāei que pela proximidade será a minha primeira paragem.

Compro o ingresso e assim que dou os primeiros passos no interior daquele edifício apalaçado sou imediatamente esmagado pela beleza que me rodeia. Tenho diante mim um lindíssimo espaço, onde minuciosos detalhes parecem preencher cada centímetro das fachadas que se erguem ao redor dos pátios que vou percorrendo. 

Para lá das arcadas escondem-se uma imensidão de salas que apesar de vazias, me mostram a incrível arquitectura persa do século XIX.
Por se tratar de um local tão especial, estava convencido que iria encontrar mais visitantes, mas são poucos os que por ali andam e esta agradável calma acaba por me fazer permanecer mais tempo do que tinha inicialmente planeado.

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Volto à rua e dirigo-me agora cheio de expectativas para a Casa Abassiana. Mostro o bilhete ao homem que se encontra sentado à porta que me faz sinal para entrar. A verdade é que só preciso de um par de minutos para perceber que por aqui as coisas são bem diferentes e deparo-me com um espaço bonito mas que se encontra visivelmente negligenciado. Está à vista de todos a falta de cuidado nos jardins assim como nos estuques que decoram as paredes.
Mais uma vez constato a total ausência de visitantes, arrisco-me mesmo a dizer que serei talvez o único no interior do espaço. 





Hammam Sultan Amir Ahmad é a minha próxima paragem. Já para lá do bonito portal e quando me preparo para iniciar a visita sou surpreendido por um grupo de alemães que opto por deixar passar, ficando eu ali à conversa com o simpático rapaz que me conta um pouco da história do local. 
Este antigo Hammam datado do século XVI, que atualmente já não desempenha a função para a qual foi concebido, viria a revelar-se um dos sítios mais bonitos que visitei durante esta viagem.





Neste meu passeio pela zona histórica de Kashan, segue-se a Mesquita Agha Bozorg que fica mesmo ali ao lado. 
Este que é o mais importante local de culto da cidade revela-se um pouco diferente de todos os outros que visitei até aqui. O espaço ergue-se em torno de um pátio central que se assemelha a um caravançarai que percorro sem nunca conseguir encontrar a sala onde decorrem as orações.
Sento-me sob um das arcadas e envolto num silêncio total observo a estranha arquitetura daquele bonito templo que divido com um grupo de jovens que ao se aperceberem da minha presença se aproximam, tentando meter conversa. O diálogo acaba por não ser possível ainda que aquele momento acabe registado em foto por um deles. 
Depois de partilhar o meu pacote de bolachas com a rapaziada, despeço-me e sigo o meu caminho.




Nesse final de tarde sentia-me um pouco cansado e regressei ao alojamento, acabando por jantar num restaurante ali perto.
Amanhã se tudo correr como bem lanço-me numa curta incursão pelo Deserto de Maranjab.



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