segunda-feira, 16 de maio de 2016

.YAZD-O LADO MAIS CONSERVADOR DO IRÃO


Deixei Shiraz à quase quatro horas e ainda tenho duas pela frente.O autocarro onde me encontro deve levar no máximo umas dez pessoas,todas elas locais.
Apetece-me dormir mas não consigo,muito por culpa dos filmes que passam na televisão com o volume estupidamente alto.Nem os tampões para os ouvidos fazem efeito.

As paisagens que cruzam a janela ajudam a passar o tempo.
A estrada que se encontra em ótimas condições avança deserto adentro.Há um bom bocado que não passamos por nenhuma aldeia e os carros são cada vez menos.
Sem que nada o fizesse prever o autocarro encosta.Algum problema?Não,é a tipica pausa para aliviar a bexiga.Olho à volta e não acredito no que vejo.Estou numa área de serviço no meio do deserto onde provavelmente só os autocarros que fazem o trajecto Shiraz-Yazd devem parar.Existe uma Pequena loja mas está fechada,provavelmente por falta de clientes.Porque será?




Sabe-me bem esticar as pernas e acima de tudo um pouco de silêncio.O calor é abrasador!
Dez minutos é o tempo que ali ficamos.Está na hora de seguir viagem.Troco umas palavras com o motorista que me garante que daqui a uma hora chegamos ao nosso destino.
Ainda bem que trouxe o meu farnel,pois a fome já aperta e desta vez não tive direito a snack.



Quando chego finalmente e Yazd,percebo e ao contrário do que seria expectável,que afinal a última paragem não é o terminal rodoviário.Estamos perto do aeroporto e ao que parece é aqui que vamos ficar.Talvez seja normal,pois todos os outros passageiros saem e seguem ás suas vidas sem reclamar!
Tiro o telemóvel da mochila e no google maps offline vejo a minha localização exacta.Ainda estou longe do centro.Tenho de apanhar um táxi.
Não foi preciso muito tempo para que um tipo de ar desleixado me abordasse.Lá vai começar de novo a argumentação!
Real para cima,Real para baixo lá chegamos ao valor de 70.000 IR, que parece agradar a ambas as partes.Seguimos num carro mais antigo que as pirâmides do egito.

Depois de algumas tentativas falhadas,consigo arranjar alojamento numa simpática guesthouse bem no centro da cidade velha.
É uma da tarde,tenho fome.Vou Já comer qualquer coisa e deixo as visitas para mais depois.Ponho as coisas no quarto e pergunto na recepção se me podem indicar algum local onde posso almoçar.
Não fica longe.Em meia dúzia de minutos estou sentado com um prato cheio de arroz e carne à frente.A comida Iraniana está a revelar-se uma autentica surpresa!




O tempo está ótimo e o centro histórico de Yazd com a sua arquitectura muito particular está à espera de ser descoberto.
Diz-se por aqui que a presença humana neste local já se estende à mais de 7000 anos.Há mesmo quem diga que é a cidade mais antiga do mundo. 
Logo ali,numa praça mesmo ao lado do restaurante vejo o primeiro reservatório de água,construído para armazenar este bem tão raro por estas bandas e provavelmente ainda data de altura em que Yazd era ponto de passagem e paragem das caravanas que faziam a Rota da Seda.





Tentei seguir o circuito traçado no guia Lonely Planet mas rapidamente me perco pelos becos e ruas labirínticas deste pequeno mundo de cores pastel,completamente erguido à base de uma mistura de terra e palha que dá pelo nome de Adobe.Vou andando por ali debaixo de um calor abrasador.Não se vem ninguém.
Á um detalhe que chama a minha atenção.Grande parte das portas (mesmo das casas mais antigas) estão "enfeitadas" com dois puxadores estranhamente bonitos.Autênticas obras de arte que mais tarde fiquei a saber que devido ao som destinto serviriam para identificar se quem bate a porta é homem ou mulher.




Quase duas horas depois de ter iniciado a minha ronda,chego ao bazar que se encontra encerrado,tal como grande parte dos comércios da cidade.A grande Mesquita Jameh,datada do século XV e principal local de culto é logo ali.
Talvez devido ao calor que se faz sentir,não me tenho cruzado com muitas pessoas e até a mesquita está praticamente vazia.






A avenida principal fica no final da rua.Vou até lá na esperança de encontrar uma loja aberta onde possa comprar uma garrafa de água.A que trago comigo já está no fim e a este ritmo vai desaparecer rapidamente.O calor não dá sinais de abrandar!
Passo pela Torre do Relógio e pouco depois chego à Mesquita Hazireh,bem mais simples que a que visitei momentos antes mas com uns vitrais maravilhosos.




Pergunto na loja onde parei para comprar água se há forma de aceder aos telhados.Tinha visto umas fotos tiradas a partir desse local e queria arranjar maneira de subir.
A simpatia do homem deixa-me sem palavras.Anda comigo de um lado para o outro durante talvez uns quinze minutos até que finalmente através de uma outra loja consegui aceder onde queria.A simpatia iraniana no seu melhor!
Desfaço-me em agradecimentos.



O Templo do Fogo é o próximo objectivo mas  ainda fica um pouco distante de onde me encontro.As ruas vão-se aos poucos enchendo de pessoas e à medida que vou avançando reparo que por aqui as mulheres veste-se de uma forma mais conservadora.O preto é a cor predominante e o véu que cobre a cabeça é bem mais longo que o normal.
Quando chego,a porta encontra-se fechada.O espaço só abre ás quatro e meia da tarde.Não vou ficar à espera!
Um taxista já experimentado e provavelmente habituado a ver turistas bater com o nariz na porta,tem o carro estacionado logo ali e não perde tempo. 
Aborda-me com o típico "taxi,taxi" na esperança de conseguir mais um cliente.Não mostro interesse mas o tipo insiste.
Sento-me num banco de pedra,pego no guia e tento reorganizar o meu trajecto.
Na verdade não tinha intenção de visitar hoje as Torres do Silêncio mas já que estou a meio caminho até pode ser uma boa ideia.
O taxista continua ali parado a olhar para mim.Mostro-lhe no mapa onde quero ir e pergunto quanto quer para me levar até lá e trazer de volta.Depois de uma pausa responde:
"-300.000 IR"
"-Não.É muito.150.000 IR é o que posso pagar."
"-Ainda é longe,170.000 IR e não precisas de comprar o bilhete para aceder ao local"
"-Negocio fechado!"
Porreiro.Sei que é um ótimo preço porque tinha lido algures que normalmente os taxistas querem 300.000 IR.Precisamente o que este pediu inicialmente.Só espero que tenha percebido que é ida e volta.
Antes de entrar volto a confirmar:
"-Go and return,right?"
"-Yes,yes."



Sabia igualmente que se podia facilmente aceder ao complexo sem pagar bilhete,bastando para isso contornar o muro que circunda parcialmente a área.
Quando chegamos,percebo que o espaço se encontra encerrado.O taxista que conhece os cantos à casa deixa-me na área onde não há qualquer proteção.Um pouco a medo passo por cima de uns montes de terra e aqui estou eu com as Torres do Silêncio diante mim.
Ainda pensei que viesse alguém chatear-me mas à primeira vista não há ninguém.



Avanço calmamente.Tento absorver ao máximo o que estou a ver.Este é um dos locais mais importantes do Zoroastrismo,uma antiga religião ainda presente nesta zona do planeta. 
Ao contrário do que fazemos atualmente,os Zoroastricos consideram os corpos de pessoas mortas algo impuro.Para não violar a pureza da terra,em vez de os enterrarem,optam por deixar o cadáver exposto no alto de uma montanha para que os abutres se encarregam da decomposição do mesmo.
Ao que parece este local já não desempenha a função para que foi concebido.Para nós é uma simples atração turística,mas para os crentes continua a ter uma grande importância histórica e sobretudo religiosa.




O espaço é relativamente grande e ando por ali tranquilamente tentando explorar cada recanto.Vou entrando em alguns dos edificios existentes,muitos deles bastante maltratados pelo passar dos anos.Outros foram restaurados.
Apesar do calor que se faz sentir,quero subir até lá acima.Bebo uns golos de água e meto os pés ao caminho.É mais fácil do que inicialmente imaginei e num instante chego ao topo de onde tenho uma vista brutal sobre a cidade.Faço umas fotos e logo depois sento-me ali.
Descanso,oiço o silêncio e desfruto da paisagem.Lá em baixo vejo o taxista que aguarda pacientemente que eu regresse.




Quando volto ao centro o sol já desapareceu no horizonte.As ruas que à poucas horas estavam desertas,encontram-se agora apinhadas de gente.A cidade acordou,encheu-se de cor!
A noite cai rapidamente.Aproveito para dar um saltinho até à praça onde estive horas antes e onde fica situado o complexo Amir Chakhmak que a esta hora se encontra totalmente iluminado.



Daqui sigo directamente para o hotel,tomo um duche e preparo-me para ir jantar.
Mais um dia que chega ao fim...
Pelo que vi e experimentei,Yazd é até ao momento a cidade que mais gostei. 

.Aqui ficam todas as crónicas da nossa viagem pelo Irão
Primeiras horas de uma viagem memorável
Esfahan
Persépolis
Shiraz
Yazd
Naqsh-e Rostam
Kashan
Kharanaq,Chak Ckak e Meybod
Deserto de Maranjab


Abyaneh

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