quarta-feira, 11 de maio de 2016

CONHECER A CIDADE HISTÓRICA DE SHIRAZ - IRÃO


Pela primeira vez nesta viagem apeteceu-me preguiçar e dormi até depois das oito.
Já não estou no mesmo hotel, uma vez que se confirmou a falta de disponibilidade naquele onde ficara na noite anterior.
Por intermédio do grupo de franceses que conheci durante a visita a Persépolis, consegui alojamento numa guesthouse bastante porreira e com um preço ainda melhor.
Estou a pagar 600.000 IR por um quarto com w.c. partilhado, pequeno almoço e wi-fi.
Tomo um duche rápido, petisco qualquer coisa e saio quase de imediato uma vez que hoje é o único dia que tenho para explorar Shiraz e quero aproveitar ao máximo o tempo.
O céu encontra-se coberto de nuvens escuras com ar ameaçador e para já o meu único desejo é que não chova. 
Não conheço minimamente a cidade, mas à primeira vista não me parece muito diferente de Esfahan. Como tenho feito até aqui tento orientar-me usando um mapa e a aplicação google maps offline que tenho no smartphone e que sem dificuldades me leva à mesquita Mesjed-e Nasir al-Molk.
Pago 150.000 IR pelo bilhete e aproveitando aquela tranquilidade matinal dou os primeiros passos no interior daquele que é muito provavelmente o local mais visitado da cidade. 


Estou no pátio central que pensei que fosse maior e que por agora se encontra estranhamente despido de gente. Sorte a minha!
Olho ao redor em busca da famosa sala dos vidros coloridos que por diversas vezes já tinha visto em imagens. É logo ali. À entrada uma placa avisa os visitantes de que só é permitido entrar descalço. Coloco os sapatos num canto e penetro naquele mundo cheio de cores no qual o silêncio é palavra de ordem. É realmente um local fantástico que suplanta em muito as expectativas que trazia. Só tenho pena de não haver sol.
Aproveito para fazer umas fotos antes que o espaço se encha com o grupo de turistas que lá fora já se agita. 
Tal como era expectável a sala é rapidamente invadida pelo tal grupo e toda a magia ali presente se dissipa, fazendo-me perceber que está na altura de seguir viagem. Antes de abandonar o local ainda dou mais uma volta pelo pátio central.
Já no exterior cruzo-me com o Pedro (o português que conheci na noite que cheguei a Shiraz) que acompanhado do seu grupo se preparava para visitar a mesquita.
Cumprimentámo-nos e cada um segue o seu caminho.

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Pouco depois sinto no corpo as primeiras pingas de chuva que rapidamente se transformaram em algo bastante mais consistente. Não era disto que estava à espera!
A porta do Bazar-e Vakil surgiu no meu caminho como uma bênção. Abriguei-me lá dentro e senti a energia daquela gente. Misturei-me com aqueles homens e mulheres que ali vendem e fazem compras de forma despreocupada, talvez ignorando o dilúvio que acontece no exterior. O ambiente é em tudo idêntico àquele que testemunhei aquando da minha passagem por Esfahan e até reconheço os mesmos cheiros e as mesmas cores, ainda que aqui as pessoas aparentem ser visivelmente mais simpáticas. 
Quando paro para ver algo que me atrai, por vezes falam comigo em farsi. O mais provável é que não falem inglês, mas também já pensei que talvez me confundam com um deles. Será? 




Passo à porta de uma loja onde três velhos sentados bebem chá e conversam talvez sobre assuntos triviais do dia a dia.
Volto para trás. Um dos homens levanta-se e vem ter comigo. Em inglês pergunto quanto custa um chá, a resposta é dada em farsi que obviamente não entendo.
Volto a tentar. Aponto para o bule e repito a pergunta. O velho responde da mesma forma mas desta vez estende-me a mão aberta.
Fico com a ideia de que será 50.000 IR, mas para confirmar saco de telemóvel e marco o valor na calculadora.
O homem abana a cabeça de forma positiva e convida-me a entrar.
Sento-me e num piscar de olhos tenho em cima da pequena mesa de plástico um bule de chá e uma malga cheia de tâmaras.  

Ainda dentro do bazar descubro por acaso um antigo Caravançarai que apesar de ter sido restaurado não deixa de ser um importante testemunho dos tempos em que as caravanas de camelos atravessavam esta área enquanto percorriam a famosa rota da seda.
Atualmente o espaço encontra-se inserido no Bazar, estando totalmente ocupado por lojas e cafés.

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Consulto o mapa e percebo que posso aceder à Mesquita Vakil através do Bazar. À entrada esbarro na inevitável bilheteira onde um cartaz em inglês e numas letras bem visíveis anuncia:TICKET 150.000 IR. 
Ainda à distância, consigo perceber que há pessoal a entrar sem pagar. São com certeza locais.
Meto a máquina fotográfica na mochila e resolvo arriscar. Talvez passe por um deles.
Avanço de forma decidida. Ao passar pelo homem que guarda a entrada lanço um "salam" que não obteve resposta. Entrei sem qualquer problema.




Mais uma vez e depois de visitar este local constato que o preço do bilhete é de certa forma exagerado tendo em conta o que existe para ver. Compreendo que estes monumentos precisam de manutenção mas custa-me bastante ter de pagar para entrar seja em mesquitas seja em igrejas.
Deixo o local por aquela que é considerada a entrada principal e logo ali por 70.000 IR compro uma sandwich de Falafel que guardo para o almoço.


Quero ver de perto a Arg-e Karim Khan, uma grande fortaleza que existe no centro da cidade. 
Infelizmente durante toda a manhã, o mau tempo tem sido uma constante. Caminho pela avenida principal sob uma chuva miudinha que insiste em não me deixar tirar a máquina fotográfica da mochila. 
Ao longe já avisto aquela grande estrutura coberta de tijolos que se ergue no meio de uma praça bem cuidada, na qual, apesar da chuva, se encontram bastantes pessoas.

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A chuva volta a cair com mais intensidade e sou obrigado a abrigar-me no interior do castelo. Aqui o bilhete também custa 150.000 IR.
Quero visitar mas vou esperar uns minutos até que o tempo melhore. Enquanto estou sentado num pequeno degrau fico com a ideia de que alguns dos presentes falam em português entre eles. Talvez seja o grupo do Pedro, mas não reconheço ninguém.
Volto a ouvir palavras na nossa língua e apercebo-me da existência de um punhado de pessoas acompanhadas pelo Rafael com quem havia falado online alguns dias antes e me tinha dado bastantes informações sobre o Irão. Sabia que andava pelo país a acompanhar um grupo de viajantes mas nunca imaginei que nos cruzássemos em Shiraz. Com ele está a Cidália que segue o Diário das Viagens e com quem também havia falado há alguns dias atrás. Boa surpresa.
Sou convidado para almoçar com o grupo. Aceito sem hesitar. A visita à fortaleza fica para mais tarde!
É ainda sob uma chuva que incomoda mais do que molha que seguimos em direção ao restaurante onde além de uma ótima refeição, falámos, rimos e contámos as nossas experiências de viagem.


Depois de almoço o tempo acaba por melhorar. O céu já não está tão carregado de nuvens e até o sol, mesmo que de forma tímida, já deu um ar da sua graça.
Aproveito esta benesse e resolvo caminhar até à zona norte da cidade. É nessa direção que fica aquele que é provavelmente o espaço público mais frequentado pelos habitantes locais, uma espécie de refúgio para os Iranianos que aqui se deslocam de forma a prestar homenagem a Hafez, um antigo poeta filho da cidade. Ao que parece a popularidade dos seus livros só é ultrapassada pelo Corão.
O ambiente é estranhamente pesado. As pessoas amontoam-se em redor do túmulo, algumas mulheres choram e outras esforçam-se por lhe tocar. Mantendo a devida distância, assisto a todo aquele ritual e mesmo assim consigo sentir a intensidade daqueles lamentos. Uma experiência que certamente não esquecerei.



Gostava de ficar mais um pouco, mas o relógio não pára e só tenho talvez mais um par de horas até começar a escurecer. 
Faço o caminho de regresso ao centro e vou parando aqui e ali, ora para tirar fotos ora para simplesmente observar o que me rodeia ainda que as imagens daquilo que presenciei momentos antes não me saiam da cabeça. 
A certa altura o silêncio é quebrado pelo chamamento para a oração do final do dia que ecoa por toda a cidade.
Estava a pensar ir agora visitar a Aramgah-e Shan-e Cheragh, mas parece que vou ter de esperar.
Passo à porta da fortaleza com o objetivo de entrar mas já se encontra encerrada. Sem mais alternativas sento-me por ali uns minutos de forma a descansar as pernas, até ao momento que acho já ser tempo de regressar à mesquita. Percorro a curta distância que me separa deste local e quando me preparo para entrar, não me deixam. Explicam-me que como não sou "fiel" só o posso fazer na companhia de um guia autorizado. Pedem-me para aguardar sobre a pequena tenda e pouco depois lá aparece o homem que me irá acompanhar durante a visita.
Ao meu lado tenho o Mohamed, que no seu papel de guia se apressa a explicar que nos encontramos num dos locais mais sagrados do país e que aquela mesquita funciona igualmente como Mausoléu onde se encontra o túmulo de um dos irmãos do Imam Reza.
Por diversas vezes repete a mesma frase:
"-Pode tirar algumas fotos mas de forma discreta"




Sou convidado a entrar no edifício principal e onde só os homens têm acesso, mas antes tenho de me descalçar.
Numa primeira sala passo pelo túmulo ao redor do qual, várias dezenas de homens de forma emotiva dizem algum tipo de reza em voz alta. Inevitavelmente regressam à minha cabeça as imagens do ritual que assisti ainda há pouco.
Não tenho palavras para descrever a beleza do que tenho à minha volta. O enorme espaço onde decorrem as orações não se parece com nada que já tenha visto. Pequenos pedaços de vidro cobrem paredes, colunas e tectos deste espaço iluminado por grandes candelabros. 
Consigo perceber nos olhos do Mohamed um certo orgulho por me ver encantado com a decoração daquele que posso dizer ser até ao momento um dos locais mais bonitos que visitei nesta viagem.




Depois de me levar a conhecer uma área vedada mesmo aos "fieis" e que ao que parece é a mais recente extensão da mesquita, voltamos ao exterior onde aproveito para fazer mais uma fotos antes de dizer adeus ao simpático guia. Fico por ali mais uns minutos com a promessa de que mantenho a máquina fotográfica na mochila.

Quando acho que já vi o suficiente, abandono o local.
Já está a anoitecer. E enquanto me encaminho para o hotel aproveito para comprar alguns mantimentos para a longa viagem de amanhã.
Um pacote de bolachas, uns sumos, meia dúzia de bananas e uma garrafa de água devem ser suficientes para a jornada. 
Nessa noite, ao jantar, ainda tenho a sorte de me juntar de novo ao grupo do Rafael.
Hoje deito-me cedo pois amanhã quero mesmo estar no terminal rodoviário por volta das seis da madrugada.
Próxima paragem Yazd.



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